Reflexão - Sobre a Crença e o Pensamento.



Gilson Gomes

Advogado

“A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é  viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.”

Fernando Pessoa

O homem sempre teve crença, desde os tempos mais antigos, passando pelo período por várias fases,  mas,  a Grécia antiga nos fornece a base do pensamento que hoje temos, inclusive o  - Logos (razão), e nos fornece a dialética (conhecimento pelo diálogo),  por último estabelece  a diferença entre a  Doxa e a Episteme, a evolução de uma à outra. Assim  nasce a filosofia, filosofar é refletir e pensar.

O homem se move pela sua fé, então pela força do poder originado por vários matizes, podendo  ter encontrado no dinheiro, pelo conhecimento despótico, e pela repressão e opressão excessiva aplicada contra seu opositor, seja  ficto ou real, ainda, delírio  surto expressos  por meio do  fanatismo, como também a ilusão de ótica ao imaginar verdadeiro aquilo que não passa de falseamento do fato.

A crença se relaciona com o direito de ter um credo religioso e  político, e direito de livre expressão de opinião (art. 5º, incisos IV e VI, da Constituição Federal do Brasil), sendo que o contrato social nacional brasileiro  divide entre os direitos fundamentais do homem o direito de pensamento e o direito de crença e opinião.

O que se pode observar é que o constituinte de 1988 usa a matriz platônica e a aristotélica, bem como a lógica de Agostinho de Hipona e de Santo Tomás de Aquino. Claro que o enunciado  durante renascimento teve influência de René Descarte – O pai da ciência moderna -, tanto no seu discurso do método quanto nas suas meditações, e posteriormente, os teóricos do iluminismo como Volltaire, Montesquieu, e Rousseau, evidente que a base do racionalismo iluminista tem sua maior expressão  em Immanuel  Kant, na sua critica da razão pura e critica da razão prática, como também nos fundamentos da metafísica. Pois esses notáveis homens  tocaram fogo no estopim  que deflagra a revolução francesa, em 1792.

Por que  a  manifestação do pensamento, quando ofensivo e  causar dano a honra  enseja direito de resposta?

A resposta é demais simples. Pois na concepção aristotélica, pensamento é matéria, é coisa (res), é objeto, em sendo coisa e objeto, pela sua essência e potencia  quando arremessado pela linguagem nas suas várias formas, seja verbal (escrita e oral), ou pela ação, omissão, imperícia e negligência, possuindo como dissera Kant o –  dolo mau ou mal (malus dolus), a intenção de causar o dano a outre, no caso a vítima da ofensa. Então como se trata de matéria, coisa  e objeto, o pensamento ele tem essência e existência, tanto no tempo quanto no espaço ele é suscetível de quantidade e qualidade. Veja que a premissa é verdadeira, no sentido de  verificar que no momento que  o homem ameaça  com palavras, por meio de um bilhete, que irá  acionar o gatilho da sua pistola 42, esse pensamento é coisa objeto, mesmo que não tenha acionado o gatilho e executado  o ato infracional  Penal e pecaminoso  teologicamente, e mais precisamente, metafisicamente (ontologicamente).

Outro aspecto que merece ser chamado atenção, dentro do Organon (lógica) de Aristóteles, na questão do pensamento é a formação da premissa que possui o resultado verdadeiro, na questão da prova, já que a prova é a congruência entre  o pensamento e o fato, dentro da concepção  objetiva, subjetiva, pragmática e kantinna da prova. A prova tem um juízo de valor, mas ela precisa ser congruente e coerente com o pensamento, sua base teórica, e o fato. Logo o pensamento aqui exprime aquilo que é, o que é visto. O que é se justifica pelo pensamento[1][2]. Então  veja como pensava Tales de Mileto, bem antes de Aristóteles:

“A coisa de maior extensão no mundo é o universo, a mais rápida é o pensamento, a mais sábia é o tempo e mais cara e agradável é realizar a vontade de Deus.”

Assim não duvida que o pensamento  é   matéria e forma, convertendo-se em ato e fato.

Por isso, que  existe a falácia, o argumento inválido, que pode ser um grande engodo ou ledo engano, porque não se trata de pensamento fruto do discernimento e reflexão. Aí se pode compreender a causa de tantos conflitos entre os homens, porque o homem não  expressa a equação dentro do pensamento  comprovado, aquilo que Platão denomina de ciência.

A crença em regra se contra fundamentada numa relação fundada em dogmas, eu acredito porque acredito, não discuto sua causa e o seu efeito. É direito que cada qual possui expresso no mandamento constitucional. A crença se deriva do crer,   pode se tratar de substantivo, adjetivo, e predicado. A crença quando é entra no campo da verdade. Por exemplo, a crença na lei da gravidade,  a crença  na perfeição do triângulo como figura geométrica, esta crença é predicado, porque é ciência, e é  verdadeira  em si mesma.

Mas, a crença  de que dinheiro dá em árvore, de que no ano que vem o Brasil eliminaria  complemente   o analfabetismos funcional,  é não é verdade, porque tais crenças não estão dentro da possibilidade, pode até acontecer uma redução do analfabetismo, ou alguém colocar dinheiro falso em árvore,  mas que do ponto de vista prático tal premissa não é  verdadeira, mas sim um absurdo.

No que se refere  a crença religiosa, embora  o direito  de professar o credo religioso ou político se trata de conquista no final da idade moderna e contemporânea, já   que o Estado possuía religião oficial,  e o partido político era do rei que reinava naquele período. Na França  nos momentos que precederam a revolução francesa existia os parlamentares que se colocavam a direita – os favoráveis ao rei, e os da esquerda – a oposição ao rei, evidente, que na Grécia antiga, como na Roma dos Césares também existiam partidos, basta observar o partido que apóia Julio César, e o outro que apoiava Pompeu.  Entre os Judeus, do tempo de Jesus – Nazareno -, também existia o Partido dos  fariseus e o  dos saduceus. Dentro da teocracia islâmica, também existe, atualmente, os partidos xiitas e os sunitas. Na verdade, o partido é a expressão do direito de organização para a defesa da sua crença política, evidente, que entre os Estados que professam a teocracia, aí se confunde a religião com o controle administrativo do Estado, gestão e fé. Como foi o caso da igreja Cristã depois da decadência do Império Romano,  com o Imperador Constantino, o que leva a Igreja a  substituir  o poder do império romano, onde se confunde o poder temporal e o espiritual.

No caso, Platão  diz que a opinião  não é ciência, a opinião é  particular. Cada qual possui a sua opinião, não confundir opinião com idéia, já que o mesmo Platão estabelece que a idéia  é a criadora da ciência, que forma a ciência. A idéia é validada pelo ato ou fato, a idéia é a explicitação do pensamento, e não uma opinião. Opinião não obriga ninguém a seguir, ela é um parecer, posição, enfim é uma explicitação pessoal que não há prova, nem necessidade de provar, porque é uma opinião, é o exercício da liberdade.

Logo se pode ter a opinião que quiser, mas não a idéia que quiser já a idéia requer elaboração, formulação, prova, por exemplo, a idéia de pintar um quadro, é preciso conhecer a técnica, a arte, e  as tintas para pintar o quadro. O mesmo acontece com a idéia de construir uma casa, precisa conhecer engenharia e a técnica da edificação.

Então, crer no Deus único e verdadeiro é uma questão de fé, mas Deus pode existir ou não existir. Se  sou adepto da fé em que existe e creio na  existência com base na ordem do universo, e na energia. Se não creio a meu juízo  a existência de Deus é desnecessária, porque o universo nasceu de uma explosão, e o homem apareceu aqui na terra pela evolução da bactéria, e fricção do próton, elétron e nêutron, onde resulta o átomo, também se aceita, porque um dos fundamentos do Estado de  direito é respeitar a opinião.

O respeito a  liberdade de opinião e de pensamento representa grande evolução da  humanidade, no seu processo civilizatório.

Todos são livres para ter fé, mas são livres para não ter, porém não ter fé pode perder a esperança, e entrar em conflito consigo mesmo, gerando grande  frustração e depressão. Mas, por outro lado há os que dizem nada acontecer, são os céticos. Então, como não há dano as partes, e estando  bom para todos, eis a questão, ter fé ou não ter fé.

Conclusão – Ter fé, não ter fé, ter idéia, não ter idéia, ter opinião e não ter opinião se encontra o pensamento. Por isso o pensamento  amento pode ser falacioso, quando o argumento que descreve a premissa não for válido.

Aí - Se penso, logo existo (Descartes).

Observação: Trata-se apenas de uma modesta reflexão sobre a matéria, já que para  dizer teria de escrever um Tratado.

Pense.

ACADEMIA CRICIUMENSE DE FILOSOFIA – ACF.

[1] III. Mediante a doutrina da matéria e da forma, Aristóteles explica o indivíduo, a substância física, a única realidade efetiva no mundo, que é precisamente síntese - sínolo - de matéria e de forma. A essência - igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie - deriva da forma; a individualidade, pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais, depende da matéria. O indivíduo é, portanto, potência realizada, matéria enformada, universal particularizado. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular, que tanto atormenta Platão; Aristóteles faz o primeiro - a idéia - imanente no segundo - a matéria, depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico, que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro.
[2] Pensamento e pensar são, respectivamente, uma forma de processo mental ou faculdade do sistema mental. Pensar permite aos seres modelarem o mundo e com isso lidar com ele de uma forma efetiva e de acordo com suas metas, planos e desejos. Palavras que se referem a conceitos e processos similares incluem cognição, senciência, consciência, ideia, e imaginação. O pensamento é considerado a expressão mais "palpável" do espírito humano, pois através de imagens e idéias revela justamente a vontade deste. O pensamento é fundamental no processo de aprendizagem (vide Piaget). O pensamento é construto e construtivo do conhecimento. O principal veículo do processo de conscientização é o pensamento. A atividade de pensar confere ao homem "asas" para mover-se no mundo e "raízes" para aprofundar-se na realidade. Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se avaliador da realidade. Segundo Descartes (1596-1650), filósofo de grande importância na história do pensamento, "a essência do homem é pensar". Por isso dizia: "Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma, que ignora muitas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente. Logo quem pensa é consciente de sua existência, "penso, logo existo."

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