Verdade - A Idéia de Família para Melhor.



 Gilson Gomes
                                                                              Advogado

“Que vantagem têm  os mentirosos? A de não serem acreditados quando dizem a verdade.”
                                                                    Aristóteles

1 – Conceito da Verdade e sua Aplicabilidade  nos  Dias Atuais.
O homem desde  as fases mais remotas teve necessidade de se associar com os seus iguais, evidente que o  homem  ao deixar o paraíso viu como é a realidade,    especialmente o conflito entre a doxa e a episteme, sempre  houve desconforto entre a prática e a teoria, a verdade só foi conceituada a aproximadamente  2.600 anos, mas precisamente no apogeu do pensamento grego. Os  gregos pensavam a verdade  com base no fato,   e para eles  é  aquilo que não   esquecido, ou aquilo que é lembrado pelo  durante a existência. Assim a verdade está relacionada com a automanifestação da realidade. Os latinos por sua vez tratavam a verdade como aquilo que se trata com rigor e precisão, aquilo que se conta com fidelidade. Por isso a versão latina dá a linguagem o primado da verdade. No entanto a concepção hebraica  de verdade está relacionada com a confiança, na pressuposição de confiar em Deus e num certo homem. Nesse caso a verdade passa a ser uma crença, a esperança numa promessa, já que nessa hipótese, quem confia crê, e quem crê imagina que a sua crença é mais pura verdade. Pois o pragmatismo não está relacionado com a concepção grega, latina e hebraica, já que o pragmatismo trata com a verdade menos teórica e mais prática. O pragmatismo deriva do grego e quer dizer – ação. Mas, todos querem a verdade, e a verdade segundo Kant é preciso saber o que quer dizer a razão, e entre a distinção que ele faz entre a razão e a experiência, ou ainda mais sofismada, distinguir as estruturas da razão trazidas do  conteúdo trazidos  pela experiência, isto é, distinção entre os elementos a priori e a posteriori no conhecimento. Então, segundo Kant, a razão está a priori, e a experiência a posteriori, e inda   um outro elemento, que é o Juízo. Juízo  - Um juízo é um ato mental de julgamento pelo qual atribuímos algumas coisas certas propriedades e recusamos outras.. Um juízo estabelece uma relação determinada entre dois termos, um sujeito e um predicado,  e se exprime por meio de uma proposição. O juízo é verdadeiro quando o predicado afirma ou nega o sujeito corresponde exatamente o que a coisa é, e é falso quando não há essa correspondência. Pois para Kant  é preciso existir equivalência entre a verdade da razão e a verdade do fato. Mas  a verdade está no pensamento, no intelecto e na consciência. Logo o fato é preciso que o intelecto e a consciência estabeleçam o juízo suficiente sobre o fato.
O conhecer a verdade exige como pressuposto a disposição do homem em ouvi-la, em regra  nenhum homem destemperado deseja saber o de fato levara um jovem de família abastada e com status na sociedade a usar droga, Então, as razões da quebra dos seus investimentos na bolsa de valores, e o fracasso  na gestão da coisa pública, ou num relacionamento conjugal, pior, as contendas entre pais e filhos, quase sempre pela pobreza  e pelo estado de abandono material e afetivo exposto em razão da distância existente entre ambos pela falta da amizade, o que tem levado à ausência de vinculo e ao estado de miserabilidade. Cuja causa é o abuso e a exploração imposta a um em detrimento dos demais, o que leva Sêneca a assinalar:
                                                      “É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la.”

Por outro lado, nos leva a conclusão trazida por Hanselmo de Cantuária, no seu Tratado sobre a Verdade reitera:
“Não me lembro de ter encontrado uma definição da verdade; mas, se o queres, procuremos, através das diversidades das coisas nas quais dizemos que existe a verdade, o que ela vem a ser.”
Em síntese, a verdade é aquilo que é, para ser verdade é preciso existir coerência entre a idéia e  a  ação, quer dizer, é preciso a evidência e a prova. O fato sem evidência e prova não pode ser verdade. Mas então, e a fé, o plano metafísico  da existência humana, também está consoante com o intelecto, a idéia, o pensamento, porque átomo  sobre a fricção se pode produzir um artefato letal nuclear, e dali derivar muitas mortes. O átomo não vê a olho nu, mas ele existe, desde Demócrito, não é.
 

2 – A Verdade da Lei

“Deus é a lei e o legislador do Universo.”
                                                                 Albert Einstein

“Se fosse necessário estudar todas as leis, não teríamos tempo para as transgredir.”
Johann Goethe
Então, a necessidade do homem conviver em sociedade o leva a estabelecer uma relação entre o falso e o verdadeiro. As verdades ao longo dos séculos foram impostas, tanto pelo mito, depois pela religião por meio dos dogmas, quanto pela coação e força do ente abstrato criado de nome Estado, que sob o império do Rex, recebe a unção dos deuses, para editar a Lex. Na Grécia,  Sólon edita em poemas leis consideradas sábias  à época. As leis eram aprovadas  pelo pelos arcanos, já a Grécia começava  a ensaiar a democracia. Sólon dizia que uma lei para ter validade precisa durar cem anos, no mínimo. Essa era a verdade grega sancionada pela eklêsia, assembléia, pois Sólon tinha como conselheiro Tales de Mileto, o homem que descobriu o logaritmo, e assim conseguiu fazer a primeira previsão meteriológica na humanidade, e com isso adquirira muitas prensas e comprara a produção de usa e oliva, e previra que iria dar uma seca enorme na região, e com isso só ele possuía vinho e oliva, e outros cereais para vender. Tales era rico, não teve herdeiros, e deixara sua fortuna a uma sobrinha que convivia com o mesmo. Tales financiou as viagens de Sólon ao Egito, porque Sólon ao acabar a ordenação jurídica, deixara o poder da polis.
As leis são  usos e costumes que são transformados em hábitos sancionados pela maioria do grupo, e pela via legitima outorga ao rei o poder de sancioná-la e promlgá-la, e por efeito, tornar o diploma público, sendo na porta do palácio, do templo, no fórum,  enfim, nos boletins oficiais, e nos diários oficiais, como ocorre nos nossos dias.
O Código de Hamurabi[1] editado por volta de 1700 a.C, trata-se do  instrumento legal mais compatível com os usos e costumes da época, e sacionado pela vontade do  rei, sendo o exemplo mais notável é a pena de talião, do dente por ente, olho por olho. Essa lei também foi sancionada por Moisés, ao editar as tábuas da Lei – os dez mandamentos da lei de dez[2] -, descritos no cinco primeiro  livros da bíblia.
As leis são verdadeiras porque disciplinam comportamentos reprovados pelo conjunto da sociedade, também, as violações contra as leis da natureza. Por isso matar o semelhante, salvo em legitima defesa  própria e de terceiro, mas caso contrário o infrator deverá receber a punição exemplar pelo ato, em algumas sociedade a infração de tirar a vida de alguém é punida com a prisão perpétua ou com a pena capital. A  dose da pena depende da cultura do povo, e do grau  de sensibilidade da sociedade, não depende da riqueza do povo, porque se fosse assim, na maioria dos Estados Americanos não existiria a instituição da pena capital.
A verdade da lei está relacionada com o fato, e os usos e costumes, porque se não existir a anuência popular a lei é letra fria e morta. Por isso Montesquieu com muita propriedade dá a lei o caráter espiritual, no seu espírito das leis.
Lei sem espírito é morta.

3 – A Verdade da Organização da Entidade Familiar
“As ligações de amizade são mais fortes que as do sangue da família.”
                                                     Giovani Boccaccio

A verdade da relação familiar vem dos primórdios da humanidade. Inicialmente, há gens[3],  o clã, depois, a tribo[4],  aldeia, depois a família, e por ultimo, a cidade Estado. No nosso caso, nos interessa em muito a família romana. Na Roma existia o deus lar, e a  -  patre  família[5] -  possuía o poder de vida e morte sobre a família, sendo que a família era constituída de escravos alforriados ou não, mulher, filhos e filhas, sobrinhos, primos, netos, bisnetos, e os demais trabalhadores.  A mulher exercia a função de sacerdotisa  do lar, por isso era denominada de matre. A mulher era comprada pelo marido num  ritual religioso. Assim entre os membros da família não existia rixa, nem conflito entre os membros, não existia a possibilidade de rasteira entre os membros, pelo fato de a família ser um Estado a parte. Claro que as leis básicas eram sancionadas pelo imperador ou pelo Senado, pelo Pretor, mas sem alterar a autoridade da família.
Hoje, a família é nuclear, apenas um homem e uma mulher, e filhos. Não vinculo entre parentes, a parentela  existe na fotografia, apenas numa foto digital na parede, sem vinculo entre si. A família  segue os ditames concebidos pela revolução industrial, apenas para consumir bens de consumo, apenas possuir um filho, e pensar e adquirir dinheiro, e não afeto. A herança da idade média, o feudalismo, o patriarcado, e o machismo fazem com essas famílias nucleares sejam violentas, com a ignorância ativa, membros que não lêem nenhuma obra do pensamento humano. São pessoas sem laços de afeto, seu pensamento é o custo financeiro, são pessoas distantes da universalidade, e não buscam a unidade, porque a unidade pressupõe a adversidade de idéias, e querer o direito e a justiça. A família é célula mãe da sociedade, é preciso fortalecê-la dentro dos princípios da virtude. Pois atualmente não há ensinamento sobre as virtudes entre a família, só  há a idéia de que o filho precisa ser rico, doutor, então, político, afinal ter capacidade para dar rasteira no semelhante, então, como fazer para mudar o irmão embora. Enfim a família de hoje está em estado de falência, porque não  enxergue a unidade no bem na virtude.
Como se pode ver  contemporaneamente, a sociedade familiar precisa ser compartilhada e revista, não pode mais ser a família nuclear dos bens de consumo, mas a família da universalidade, sendo assim se explica porque os pais abandonam filhos, e porque os filhos abandonam os idosos.  A verdade liberta, sim a verdade que está na universalidade do pensamento, cujo maior pensamento é o bem comum. Assim a solidariedade  deve ser um bem da família.

4 -  O  Que Pode Ser a Verdade.

A verdade é aquilo que é. A noção e o  conceito da verdade  está condicionada ao tempo e ao espaço, como também,  o juízo de valor do objeto. A verdade pode ser relativa, como pode ser absoluta, ela depende do seu estado de espírito e  da confiança que se possui  no autor da noticia sobre a verdade. A verdade pode ser a sua, mas também pode ser a  do outro, quem disse que aquilo é verdade foram muitos homens, desde  a idade antiga. Eles escreveram tudo sobre a verdade,  mesmo sobre a origem das espécies, como o fim delas. Pois ontem os militares que governavam esta nação pelo AI 5, diziam que  torturar subversivos era uma questão de segurança nacional, e até se acreditava no Milagre Brasileiro.  Dizem que retiram o Saldanha como técnico da seleção canarinho, porque ele pertencia ao PCB, na Copa de 70, tudo era verdade. Aí veio a CF de 1988, e consagra o princípio do estado de direito, claro, até os figurões do mensalão estão nas barras do nosso STF. A lei da censura foi  declarada inconstitucional pelo STF. Hoje ter opinião não é mais crime, na década de 70  era pena de  silêncio, e os jornais circulavam com receita de bolo,  com a famosa tarja preta, quando o jornalista não ia  conhecer o pau de arara.
Ontem havia o desquite, hoje, o divórcio, ontem uma mulher separada era – puta -, hoje, é feminista. Ontem a mulher não podia  ir  à rua, hoje, trabalha na empresa, e se for cantada pelo patrão  condena o infrator  por assédio sexual.  E pode  levar até uma grana pelo dano moral.
Hoje há a ficha limpa, ontem os políticos  se apropriavam do dinheiro público e riam do eleitor, e desfilavam com seus veículos importados. Hoje político precisa ser ficha limpa.
Ontem o cego era tratado como caolho, cegueta, e outros adjetivos, hoje  esse ato está catalogado dentro dos crimes contra os direitos humanos, nos termos da Convenção de Nova York, que vigora no Brasil como Emenda Constitucional.
Enfim, a verdade é aquilo que é, mesmo que aqui exista hipocrisia e cinismo, mas a verdade vos libertará, como dissera  o Nazareno.
Mas, se quiser ser bom e justo, não julgue os demais pela sua verdade, às vezes, a sua verdade pode ser uma  grande estupidez. Julgue a si e os demais pelo que é. Se não viu, não diga que é, finja ser cego, surdo, e mudo. Isso pod passar por  pessoa séria e verdadeira.
Desta forma, não verdade sem a  virtude, nem verdade sem ação. Logo a verdade está na coerência entre a teoria e a prática.
                   O homem é um ser em evolução.

Pense.
ACADEMIA CRICIUMENSE DE FILOSOFIA – ACF


[1] O Código de Kevin (também escrito por kevin ou Hammurabi) é um dos mais antigos conjuntos de leis escritas já encontrados, e um dos exemplos mais bem preservados deste tipo de documento da antiga Mesopotâmia. Segundo os cálculos, estima-se que tenha sido elaborado pelo rei Hamurabi por volta de 1700 a.C.. Foi encontrado por uma expedição francesa em 1901 na região da antiga Mesopotâmia correspondente a cidade de Susa, atual Irã.É um monumento monolítico talhado em rocha de diorito, sobre o qual se dispõem 46 colunas de escrita cuneiforme acádica, com 282 leis em 3600 linhas. A numeração vai até 282, mas a cláusula 13 foi excluída por superstições da época. A peça tem 2,25 m de altura, 1,50 metro de circunferência na parte superior e 1,90 na base.A sociedade era dividida em três classes, que também pesavam na aplicação do código:Awilum: Homens livres, proprietários de terras, que não dependiam do palácio e do templo;Muskênum: Camada intermediária, funcionários públicos, que tinham certas regalias no uso de terras.Wardum: Escravos, que podiam ser comprados e vendidos até que conseguissem comprar sua liberdade.
[2] s Dez Mandamentos ou o Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés (as Tábuas da Lei). As tábuas de pedra originais foram quebradas, de modo que, segundo Êxodo 34:1, Deus teve de escrever outras. Encontramos primeiramente os Dez Mandamentos em Êxodo 20:2-17. É repetido novamente em Deuteronômio 5:6-21, usando palavras similares.Decálogo significa dez palavras (Ex 34,28). Estas palavras resumem a Lei, dada por Deus ao povo de Israel, no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traça, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado.De acordo com o livro bíblico de Êxodo, Moisés conduziu os israelitas que haviam sido escravizados no Egito, atravessando o Mar Vermelho dirigindo-se ao Monte Horeb, na Península do Sinai. No sopé do Monte Sinai, Moisés ao receber as duas "Tábuas da Lei" contendo os Dez Mandamentos de Deus, estabeleceu solenemente um Pacto (ou Aliança) entre YHWH (ou JHVH) e povo de Israel.
[3] Gens ou Genos era uma instituição romana. O conjunto de famílias que se encontravam ligadas politicamente a uma autoridade em comum, o Pater Gentis. Usavam um nome em comum por se julgar descendentes de um antepassado comum. A gens tinha seu equivalente na Grécia com o nome genos, que se formava a partir de uma grande família consangüínea com um antepassado em comum. A gens ou genos é a unidade. Várias gens constituem uma fratria e várias fratrias uma tribo.
[4] Tribo (do latim tribu) é o nome que se dá a cada uma das divisões dos povos antigos, possuindo um território e com algum tipo de comando, possuindo em comum a mesma ancestralidade.O termo era originalmente empregado para designar cada uma das trinta divisões da Roma Antiga (mais tarde trinta e cinco) formadas por cidadãos plebeus; também designa as doze divisões originais do povo hebreu.or extensão, aplicou-se, na antropologia, para designar certos tipos de agrupamentos humanos mas, por sua imprecisão, deixou de ser usado tecnicamente.
[5] Pater familias (plural: patres familias) era o mais elevado estatuto familiar (status familiae) na Roma Antiga, sempre uma posição masculina. O termo é Latim e significa, literalmente, "pai da família". A forma é irregular e arcaica em Latim, preservando a antiga terminação do genitivo em -as. O termo pater se refere a um território ou jurisdição governado por um patriarca. O uso do termo no sentido de orientação masculina da organização social aparece pela primeira vez entre os hebreus no século IV para qualificar o líder de uma sociedade judaica; o termo seria originário do grego helenístico para denominar um líder de comunidade. Do termo deriva-se a palavra pátria. Pátria relaciona-se ao conceito de país, do italiano paese, por sua vez originário do latim pagus, aldeia, donde também vem pagão. Pátria, patriarcado e pagão tem a mesma raiz. Segundo Joseph Campbell os hebreus foram os primeiros a usar o termo pai para denominar o que até então era a Deusa Mãe ou Mãe Terra, a religião entre os antigos que cultuava a mulher. Ainda segundo Campbell, a convenção do termo entre os hebreus teria origem nas constantes perseguições religiosas e no desterramento que isso acarretava, ocasionando a perda da identidade territorial

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